quarta-feira, 6 de junho de 2018

Precisamos (urgentemente) de mudar algo nas escolas de Portugal.

"(...) Entre os mais de 90 mil alunos que realizaram as provas de aferição de História e Geografia do 2.º ciclo, no ano passado, 45% não conseguiram localizar Portugal continental em relação ao continente europeu utilizando os pontos colaterais da rosa-dos-ventos. Ou seja: não conseguiram localizar o país no Sudoeste da Europa.
(...)
O "problema", acrescenta, não estará exatamente no conhecimento da matéria. Mas na capacidade de o aplicar quando não se trata apenas de repetir factos memorizados. 
(...)
Na Matemática, os alunos "revelam grandes dificuldades com o conceito da divisão". As frações, consideradas nucleares para a continuidade da disciplina, são outro calcanhar de Aquiles apontado, quer nos relatórios de 2016 quer nos de 2017. No Português, a interpretação de textos e a capacidade de os redigir corretamente aparecem frequentemente entre os problemas sinalizados.
(...) 
os resultados "obrigam-nos a repensar no processo que temos em termos de sala de aula", num "processo interativo entre a atitude dos professores e dos alunos".
retirado daqui



Ontem veio a público esta notícia relativa a algumas conclusões que se retiraram das provas de aferição do 5º ano. Eu trabalho precisamente com alunos do 5º ano. E tudo isto não me surpreende. Tenho alunos que no início do 5º ano, quando dão a introdução à disciplina de História, não sabem que o país ao lado de Portugal é Espanha. E tendo pela frente o mapa da Europa, não sabem onde está Portugal. Depois de muito trabalho e insistência da minha parte, ficam a saber (mas será que ainda se lembram passado uns meses?), mas nada destes dados agora vindos a público me surpreende. 

O que me preocupa é o ensino que temos atualmente em muitas escolas do nosso país. É tudo à base do "colar" a matéria e debitar no teste. Se conseguirem ter uma boa memorização, chegam ao teste, debitam o que sabem, tiram boa nota, mas será que são mesmo bons alunos?!
Muitos não percebem o que estão a estudar. Aliás, vêm da sala de aula sem nada perceberem, não perguntam ao professor da escola as dúvidas e depois compete-nos a nós, que estamos a auxilia-los no estudo, fazer com que aquilo que estão a estudar ganhe sentido e nexo na sua cabeça. 
Se eu consigo sempre isso? 
Não. 
E porquê? Porque as salas de estudo trabalham com massas (infelizmente!). São demasiados alunos dependentes e nem sempre consigo chegar a todos eles. E isso é uma das grandes frustrações do meu trabalho. Não sabem a sensação que é sair às vezes do trabalho e sentir que não cheguei a todos. Os bons alunos querem atenção porque têm de manter as boas notas, os maus alunos precisam de uma atenção imensa para que consigam perceber aquilo que na escola não faz sentido. E todos os pais querem resultados porque é para isso que pagam um centro de estudo. E nós, funcionários, tentamos reportar isso à direção, que não conseguimos chegar a todos, mas dizem que o que os pais pagam não dá para ter outro professor na sala. 

Àparte destas (importantes) questões, preocupa-me mesmo muito:

  •  o facto de termos alunos a sair do primeiro ciclo tão mal preparados. E isto acontece nas escolas públicas, mas também nas privadas, porque trabalho com crianças que estão nos dois tipos de ensino e sei bem do que falo. Acabam o quarto ano e quando chegam ao 5º ano é uma mudança brutal. E se as bases forem trémulas, é um descalabro (e já agora posso dizer pelo que tenho visto que os recentes professores de 1º ciclo necessitavam de uma preparação bem melhor nas faculdades - há pessoas licenciadas em 1º ciclo que dão erros ortográficos em fichas preparadas por eles, fora outros belos exemplos que eu podia dar aqui).
  • Percebo bem os pais que me dizem que num 5º ano, com uma média de 10 anos, os alunos ainda são umas crianças que precisam de brincar e que hoje em dia, estes alunos não deviam de passar tanto tempo a estudar. Eu percebo essa inquietação. Miúdos de 10/11 anos não têm ainda a maturidade e o ritmo necessário para perceber que já têm de dedicar uma grande parte do seu tempo ao estudo. Mas então algo está mal no ensino e algo tem de mudar. E é urgente pensar nisso. 
  • A cultura geral dos alunos é cada vez menor. Não sabem quem é o primeiro ministro. E digo-vos já que alguns alunos chegam a um 5º ano e não sabem qual é a capital do país. Não vêm o telejornal nem lêem. Preocupante, no mínimo.
  • O currículo escolar do 1º ciclo nem sempre é adequado à maturidade dos alunos. Um exemplo muito prático: se pegarem num manual de matemática do 3º ano, na parte das frações, vão perceber que eles têm de saber o que são frações próprias, frações impróprias, frações equivalentes e irredutíveis e saber resolver problemas envolvendo números racionais. E fazer com que uma criança de 8 anos perceba este tipo de termos?!  


Se perspectivo alguma mudança no ensino a breve prazo? 
Não. Vamos continuar a ter alunos assim. 

***
Claro que não posso generalizar e posso dizer que há alunos que não precisam de estudar tanto porque captam a essência na sala de aula e isso é mais que suficiente para boas notas tirarem. Mas hoje em dia, eu arrisco-me a dizer que são cada vez menos alunos a ter um perfil assim: autónomos, responsáveis, atentos e interessados pelo mundo em redor. Mas é disto que precisamos num futuro muito próximo. De alunos que sejam pessoas conscientes e informadas. 

6 comentários:

Green disse...

Tens toda a razão, sinto isso todos os dias no meu trabalho também. O nosso país está cada vez pior neste contexto, mas infelizmente é como dizes, nada vai mudar...

Nany disse...

Apoio completamente.
Tenho 2 miudos na escola: o mais veljo no 5º ano e ela no 1º
Ele, teve a sorte de ter uma boa prof que os preparou bem, mas...nisto há sempre um mas, além de ter pais que andam em cima (sim, sou daquelas mães que pergunta se têm trabalhos de casa, mesmo andando os 2 no ATL, que vai ver se os trabalhos estão feitos e bem, sem tirar o mérito a quem com eles está nas horas de estudo - já encontrei erros); também tentamos incutir métodos de estudo.
Noto muito que os miudos não sabem estudar, não sabem pegar num livro, procurar informações/dados para um trabalho. Aconteceu-nos o prof do 5º ano pedir um trabalho em Power Point, sem sequer os ensinar o que isso é.
Com ela, tem acontecido a prof faltar por questões de doença própria e de familiares e a "coisa" vai indo, mas como a mesma diz "tem dificuldades a matemática".
Sei também de casos em que os alunos passam meses sem prof de disciplinas nucleares, como português e matemática.
Este é o ensino que temos.

Ellie disse...

E infelizmente, todos estes problemas não vêm de agora. Já os sentia quando andava na escola. :(
O que precisamos é de uma boa reforma no ensino, mas não sei se isso vai acontecer...

Xica Maria disse...

Eu lembro-me somente dos professores que me inspiravam, os diferentes, os familiares... os outros vomitam matéria (também me lembro duma que cuspia ao falar...) e não há maneira de cativar. Os miúdos divagam e depois decoram sem pensar no que estão a decorar. Eu passei por isso e já foi há alguns anos...

Titica Deia disse...

Culpo a sociedade de hoje... o tempo que os pais não tem também para ajudar em casa, ou a carrada de trabalhos de casa que são feitos a despachar e depois nem à tempo para conversar...

Às coisas que deixaram de existir em casa, globos e etc...

Culpo a introdução das novas tecnologias tão cedo e o desuso das bibliotecas...

Sejam os exames sobre os novos youtubers a ver se não tiram todos 5...

Os professores... é como a Xica Maria diz, todos ao seu jeito, desde sempre... a culpa não pode estar nisso!!

Beijinhos

Sonhadora disse...

Ainda não estou bem por dentro deste modelo de ensino, mas, pelo que vou sabendo, acho que não está muito adequado, parece-me muito exigente para a maturidade que eles têm. Acho que se exige muito cada vez mais cedo, onde fica o tempo para brincar? Assusta-me.

Mas já no meu tempo também havia "bons" alunos a decorar matéria. Se eram os mais inteligentes ou foram aqueles que se tornaram melhores profissionais? Tenho as minhas dúvidas, a matéria é para ser entendida e não um "copy paste" dos livros. O mais estranho é que os professores davam melhor nota a esses! [Uma vez a professora estava a ler em voz alta a resposta correcta do teste de um aluno de outra turma e um colega da nossa sala terminou a resposta porque era tal e qual como estava no livro! A professora ficou baralhada! - estou a falar de um caso no ensino secundário, isto agora deve começar mais cedo]